Penpal 🟢
- Resenhas Alt

- 16 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Olá estranho.
Sem muita demora, digo de antemão que essa história é bem curiosa, vai atiçar sua criatividade e percepções.
Essa creepypasta inspirou um livro de mesmo nome, publicado em 2012.
Boa leitura.

Na infância, a casa onde morei com minha mãe era pequena, cercada por bosques que pareciam inofensivos durante o dia, mas ganhavam um ar sinistro à noite. O bairro era tranquilo, e éramos uma das muitas famílias de baixa renda que ali se estabeleceram. Embora minha infância fosse, em sua maioria, comum, uma série de eventos inexplicáveis me marcou para sempre.
Lembro bem das noites silenciosas, quando deitado na cama, quase adormecendo, ouvia algo que se parecia com passos no carpete. Minha mãe dizia que era só o som do meu coração quando eu encostava o ouvido no travesseiro. Mesmo assim, as noites em que ouvia os "passos" eram as que me traziam mais medo.
Minha cama era um beliche, e mesmo que eu dormisse sozinho, de vez em quando acordava na parte de baixo, mesmo tendo ido dormir na parte de cima. Tentei me convencer de que me levantava durante a noite e não me lembrava. Porém, uma noite foi diferente.
Acordei sentindo um frio incomum. Quando abri os olhos, não estava no meu quarto, estava deitado em um bosque. O pânico tomou conta quando vi uma boia em forma de tubarão próxima a mim. Não reconhecia aquele bosque, embora tivesse brincado nos arredores da minha casa por toda a infância.
Tentei me levantar, mas a dor em um dos pés me fez cair novamente. Ao olhar, vi que havia pisado em um espinho. O chão estava coberto deles, mas meu corpo, exceto pelo ferimento no pé, não tinha arranhões ou sujeira. Isso não fazia sentido. Confuso e apavorado.
Após algum tempo, decidi caminhar. Escolhi uma direção e comecei a andar, tentando ignorar o medo que me dizia para gritar por ajuda. Mas e se alguém estivesse ali, e não fosse seguro?
Enquanto caminhava, a noite parecia interminável. Não havia corujas, grilos, nada. Apenas silêncio. Até que ouvi algo que me fez congelar: um som fraco, parecido com o choro de um bebê. Minha mente, já assustada, me dizia que aquilo não era normal. Podia ser um gato, mas não quis descobrir, então apenas corri.
Focado em evitar espinhos e obstáculos, não percebi aonde estava indo até ver novamente, a boia de tubarão. Eu tinha voltado ao mesmo lugar. Meu coração apertou, junto com qualquer esperança de sair dali. Não fazia ideia de como tinha chegado ali e, agora, parecia impossível escapar.
Decidi seguir a estrela mais brilhante no céu, acreditando que ela poderia me guiar. Depois de um tempo, vi algo familiar: "A Trincheira", uma vala onde eu e meus amigos brincávamos. Meu coração, que antes estava apertado, ficou aliviado, e mesmo com os pés em carne viva, comecei a correr. Quando vi o telhado da minha casa por entre as árvores, soltei um suspiro e apressei o passo.

Todas as luzes da casa estavam acesas.
Sabia que a minha mãe estava acordada e sabia que teria de explicar, ou apenas tentar, onde eu estava e nem sequer sabia por onde começar. A minha corrida tornou-se numa corrida que se tornou numa caminhada. Vi a silhueta dela através dos estores e, embora estivesse preocupado com a forma de explicar as coisas, isso não me interessava naquele momento.
Subi os dois degraus até a varanda, pus a mão na maçaneta da porta fui abrir. Mesmo antes de a abrir, dois braços me agarraram e puxaram para trás. Gritei o mais alto que pude: “Mãe! Me ajuda! Por favor! Mãe!” A sensação de estar tão perto de estar em segurança e depois ser fisicamente afastado dela me encheu de pavor que, mesmo depois de todos estes anos, é indescritível.
A porta que havia tentado abrir, de repente se abriu e não era minha mãe que estava lá. O pingo de esperança que tinha desapareceu por completo.
Era um homem, e ele era enorme. Eu me debatia e dava pontapés nas canelas da pessoa que me segurava, ao mesmo tempo que tentava afastar-me da pessoa que tinha acabado de sair de minha casa. Estava assustado, mas estava furiosa.
“Me deixem! Onde é que ela está? Onde está minha mãe? O que fizeram com ela?”
Enquanto a minha garganta ardia por causa dos gritos e eu inspirava de novo, percebi de um som que estava presente há mais tempo do que podia imaginar. “Querido, por favor, se acalma.” Parecia a minha mãe.
Os braços me soltaram e me puseram no chão e, quando um homem que se aproximava de mim bloqueou a luz, reparei nas suas roupas. Era um polícia. Me virei para a voz atrás de mim e vi que era mesmo a minha mãe. Estava tudo bem. Comecei a chorar e entrámos os três.
“Estou tão contente por estares em casa, querido. Estava com medo de não te ver mais.” Nessa altura, ela também estava a chorando.
“Desculpa, não sei o que aconteceu. Eu só queria voltar para casa. Desculpa.”
“Está tudo bem, mas não faça isso de novo. Não sei se eu ou as minhas canelas aguentaríamos...”
Uma pequena gargalhada rompeu entre os meus soluços e eu sorri um pouco. “Bem, desculpa por te ter dado um pontapé, mas porque é que me agarrou assim?!”
“Estava com medo que fugisses outra vez.”
Eu estava confuso. “O que quer dizer com isso?”
“Encontrámos o teu bilhete no seu travesseiro”, disse ela, e apontou para o pedaço de papel que o polícia estava a deslizar sobre a mesa.
Peguei no bilhete e li. Era uma carta de “fuga”. Dizia que eu era infeliz e que não queria voltar a vê-la nem a nenhum dos meus amigos. O agente da polícia trocou algumas palavras com a minha mãe, enquanto eu olhava para a carta. Não me lembrava de ter escrito uma carta. Não me lembrava de nada disto. Mas mesmo que às vezes fosse à casa de banho à noite e não me lembrasse, ou mesmo que pudesse ter ido para a floresta sozinho, mesmo que tudo isso pudesse ser verdade, a única coisa que eu sabia naquele momento era.
“Não é assim que soletra meu nome... Eu não escrevi essa carta.”


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